Parte dos resíduos orgânicos que chegam diariamente ao Aterro Sanitário de Caieiras, na Grande São Paulo, agora viram energia e percorrem cerca de 20 quilômetros para abastecer a fábrica da Natura, em Cajamar. Na última segunda-feira (9), a gigante de cosméticos, em parceria com a Ultragaz, inaugurou a unidade de abastecimento de biometano em seu complexo industrial.
A forma como produzimos e consumimos energia ainda é responsável por cerca de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo a ONU. Ainda que os dados variem, é certo afirmar que a indústria é diretamente responsável por grandes volumes de dióxido de carbono lançados na atmosfera.
Investir em uma transição energética justa é fundamental para garantir um futuro mais sustentável e seguro. Nesta jornada, a Natura começou lá atrás com o uso de álcool nas caldeiras e de biocombustível na frota de caminhões. Agora a companhia dá mais um passo com a inserção de biometano na matriz energética para parte dos processos industriais e logísticos.
O desenvolvimento do projeto envolveu parcerias entre equipes internas, iniciativa privada e órgãos públicos, incluindo Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Corpo de Bombeiros, Prefeitura de Cajamar, além de fornecedores de tecnologia e operadores logísticos.
Do resíduo ao biometano
O Aterro de Caieiras, o maior da América Latina, recebe os resíduos sólidos urbanos e industriais do próprio município de Caieiras e de mais de 20 prefeituras da região metropolitana de São Paulo, além de receber grande parte do lixo da capital paulista. São cerca de 10,5 mil toneladas diárias de resíduos.
Em 2024, foi inaugurada no aterro uma usina de biometano, cuja produção se dá a partir da captação e purificação do biogás proveniente do tratamento dos resíduos, ou seja, trata-se de um combustível renovável de origem orgânica. Tal processo evita a liberação de metano, gás com potencial de aquecimento global 28 vezes maior que o do CO2.
No caso da Natura, o processo de transformação de resíduos em biometano cria um circuito fechado, uma vez que parte dos resíduos destinados à unidade de Caieiras retorna à empresa na forma de energia, materializando um modelo de economia circular estruturado, no qual resíduos se convertem em insumo energético para a própria operação.
Biometano em casa
O biometano é fornecido pela Ultragaz, responsável pela comercialização da produção em Caieiras. Com mais de 80 anos de história, a empresa de gás desenvolveu um projeto sob medida para a Natura: uma única estação de abastecimento atende o consumo da fábrica e da frota, sendo o gás pressurizado para caminhões e despressurizado para caldeiras.
O abastecimento dos caminhões ocorre em cerca de 10 minutos, tempo significativamente inferior ao observado em rodovias, onde o processo pode levar entre 40 e 50 minutos, gerando ganhos de produtividade. Já o uso de biometano nas caldeiras gera 15% de eficiência em relação ao uso de etanol, uma vez que tem maior poder calorífico.
“A parceria com a Natura demonstra que o biometano é uma solução madura, confiável e capaz de operar em escala industrial e logística. Ao integrar fábrica e frota em uma mesma solução energética, é possível descarbonizar processos complexos, aumentar a eficiência operacional e, ao mesmo tempo, fortalecer a competitividade do negócio”, afirma Guilherme Darezzo, vice-presidente de operações da Ultragaz. Para ele, o projeto demonstra a viabilidade de replicar o modelo em outras indústrias no Brasil.
Outro ponto interessante é que os caminhões usados para transporte do biometano também são movidos a biometano, garantindo descarbonização total do ciclo. Na logística a parceria se estabeleceu com a Coopercarga e ReiterLog.
Descarbonização da Natura
O uso do biometano em escala industrial e logística integra o Plano de Transição Climática da Natura, cujo objetivo é praticar zerar as emissões até 2030 nos escopos 1 e 2, além de reduzir 42% das emissões da cadeia de valor (escopo 3). Até 2050, a companhia busca tornar a operação 100% regenerativa, indo além da neutralização de carbono.
“Esse é um passo concreto do nosso plano de transição climática. Ele mostra como é possível reduzir emissões de forma relevante em operações industriais e logísticas complexas, usando uma solução que já está disponível, funciona em escala e gera valor para o negócio”, afirma Josie Romero, vice-presidente de Operações, Logística e Suprimentos.
O gás biometano passa a representar 45% da energia utilizada nos processos produtivos da planta de Cajamar por meio da geração de vapor nas caldeiras. “Houve ganhos operacionais com menor intervenção na rotina do dia-a-dia. Temos uma tubulação direta de alimentação, uma previsibilidade boa, o que dá tranquilidade para a operação, estabiliza os custos e melhora a produtividade”, afirma Denise Leal, diretora de Manufatura e QSE América Latina da Natura.
A fonte de energia renovável, limpa e de baixo carbono atende ainda a 100% da frota logística na Grande São Paulo, que somam 28 caminhões. Para 2026, o consumo projetado é de aproximadamente 3,5 milhões de metros cúbicos de biometano por ano, o equivalente ao consumo anual de 30 mil residências, ao mesmo tempo em que se reduz até 1,3 mil toneladas de CO2 por ano, o equivalente a tirar 280 carros de passeio das ruas todos os dias.
Além do ganho ambiental, a multinacional brasileira afirma que há uma redução de custos no balanço geral, trazendo benefícios econômicos, maior eficiência na operação e competitividade do negócio. Apesar de não divulgar o quanto foi investido no projeto, afirma que o payback será inferior a dois anos.
Regulação e implementação
Denise explica que a implementação da iniciativa foi tecnicamente tranquila após a estrutura regulatória definida, o que ocorreu em 2024, segundo Liv Nakashima, Diretora de Gestão Corporativa e Sustentabilidade da CETESB.
Em entrevista ao CicloVivo, Liv afirma que a CETESB criou procedimentos para o licenciamento ambiental de projetos de biocombustíveis e biometano, abrangendo setores como suinocultura, avicultura, indústria calcária e aterros sanitários, além do transporte de biocombustíveis.
“Foram estabelecidos procedimentos mais claros e objetivos. Esse foi um incentivo importante do Estado”, afirma. Liv conta que os projetos de biometano têm grande potencial de escalar no país, citando um estudo que indica o potencial de criação de mais de 180 plantas de produção e a geração de mais de 20 mil empregos no estado de São Paulo.
O biometano é a grande aposta da Ultragaz para descarbonizar frotas pesadas. A empresa já possui quatro postos de biometano em operação envolvendo grandes transportadoras. No caso da Natura, há a intenção de ampliar a iniciativa para outros centros de distribuição, mas os planos precisam ser de longo prazo, uma vez que depende de operadores logísticos e da ampliação de infraestrutura de abastecimento.
Com a maior operação da Natura na América Latina, a fábrica de Cajamar produz mais de 90% de tudo que a Natura vende no Brasil, além de uma parcela significativa de exportações para América Latina e Espanha, tornando o projeto de transformar resíduos em energia limpa em uma iniciativa de grande impacto e inspiração para outras gigantes do setor.
FONTE: https://ciclovivo.com.br/inovacao/negocios/residuos-de-aterro-energia-fabrica-frota-natura/


