A meuResíduo reuniu Cíntia Gerardi, co-diretora executiva do Sistema B Brasil, e Rose Floriano, consultora de Empresas B para uma conversa muito interessante no Podcast EcoMind Talks. Elas explicaram por que a certificação B, conhecida por avaliar a empresa de forma holística (governança, trabalhadores, clientes, comunidade e meio ambiente), é consequência de uma gestão viva de impacto e não um fim em si.
Destacaram a evolução dos padrões: além da antiga lógica de 80 pontos, agora existem requisitos mínimos em sete pilares, ajustados ao porte, com compromissos de melhoria contínua em marcos de 3 e 5 anos. O Be Impact (B Impact Assessment), ferramenta gratuita adotada por mais de 300 mil empresas, é apresentado como bússola de gestão que mapeia impactos, prioriza ações e reduz riscos.
Para grandes corporações, a certificação se diferencia por interoperar com padrões como GRI e SASB — referências de reporte —, garantindo comparabilidade global e acesso a capital. A jornada é viável “sozinha”, dizem as entrevistadas, mas exige coordenação entre áreas e padronização de políticas e evidências; a complexidade aumenta em grupos com múltiplas marcas e operações internacionais. Casos como a exigência europeia de certificações mostram a ligação entre competitividade, confiança e liderança de propósito. Em síntese, impacto é material para a estratégia e precisa estar integrado ao modelo de negócio.
Certificação B como vantagem competitiva: guia para novos negócios
Nesta entrevista, Cíntia Gerardi, co-diretora executiva do Sistema B Brasil, e Rose Floriano, consultora e mentora em sustentabilidade corporativa, detalham porque a certificação B consolida vantagem competitiva em grandes empresas e como usar o Be Impact — conhecido como B Impact Assessment, ferramenta de gestão gratuita — para mapear impactos, priorizar ações e reduzir riscos. Elas explicam a elevação da barra com requisitos mínimos por tema, a necessidade de melhoria contínua e o papel da liderança para transformar políticas em resultados.
Por que a certificação B importa para novos negócios corporativos
O movimento de Empresas B surgiu há 20 anos para reconhecer empresas que integram impacto socioambiental à estratégia. Diferente de selos setoriais (que olham um recorte como reciclagem ou direitos humanos isoladamente), a certificação B avalia o todo: governança, pessoas, compras, resíduos, emissões e clientes, com evidências auditáveis e interoperabilidade com padrões como GRI e SASB — referências de relato de sustentabilidade amplamente aceitas por investidores.
- Legitimidade do propósito: práticas com documentação consistente aumentam confiança de conselhos, investidores e clientes corporativos.
- Comparabilidade global: critérios comuns permitem análise entre setores e mercados, ajustados por “materialidade”, isto é, os temas de maior impacto conforme setor e porte.
- Acesso a capital e mercado: muitos fundos e varejistas utilizam o Be Impact como diligência, reduzindo risco reputacional e operacional.
Cíntia Gerardi comenta: “Quando o mercado de capitais começa a cobrar métricas e medição, o jogo muda. A certificação B comprova que a empresa vai além do discurso.” Ela acrescenta que quando o “ESG” — sigla para ambiental, social e governança — foi questionado globalmente, as Empresas B mantiveram compromissos por tratar impacto como estratégia central, não como campanha de marketing.
Do “80 pontos” aos requisitos fundamentais: a barra subiu
Por muito tempo, a elegibilidade à certificação baseou-se em alcançar 80 pontos em um questionário amplo. O novo padrão adiciona requisitos mínimos em sete pilares, proporcionais ao porte e impacto da empresa, e compromissos de melhoria contínua com marcos de 3 e 5 anos. Em termos práticos, não basta pontuar muito em um tema e falhar em outros: é preciso bases sólidas — políticas, regras, fluxos e processos — em toda a organização.
- Micro e pequenas empresas começam com menos requisitos, escalando até a recertificação.
- Médias e grandes partem de uma base mais alta, refletindo seu potencial de impacto.
- A recertificação exige progresso comprovado, não apenas manutenção.
Cíntia Gerardi explica: “Estamos elevando a barra. O mínimo agora é claro e o próximo passo é ter planos de melhoria com metas e prazos.” Rose Floriano complementa que a jornada é viável “sozinha”, com a plataforma gratuita e evidências simples — e-mails, planilhas, fotos, registros —, mas pede coordenação entre áreas e padronização de políticas para garantir consistência e auditabilidade.
Be Impact como bússola: medir, priorizar e reduzir riscos
O Be Impact (B Impact Assessment), adotado por mais de 300 mil empresas, deixou de ser “etapa” e tornou-se instrumento de gestão. Ele ajuda a identificar impactos positivos e negativos, comparar maturidade por tema com pares e mapear riscos estratégicos (cadeia de valor, trabalho digno, equidade e inclusão).
- Benchmark orientado por materialidade: prioriza o que é mais relevante ao negócio e aos stakeholders, conhecidos como públicos de interesse (colaboradores, fornecedores, comunidades, clientes, investidores).
- Integração com dados e tecnologia: inventários de emissões — escopos 1, 2 e 3, conhecidos por classificar fontes diretas e indiretas de carbono —, diversidade e indicadores sociais compõem a trilha de evidências.
- Ciclo vivo de gestão: metas de curto, médio e longo prazo, com donos claros e ritos de acompanhamento.
Rose Floriano observa: “Muitas empresas têm práticas, mas não têm evidências. Se muda a liderança, perde-se consistência.” Ela recomenda consolidar políticas em um código de ética abrangente, conhecido por reunir direitos humanos, gestão ambiental e compras sustentáveis, para evitar burocracia difusa e difícil de manter.
Competitividade, confiança e expansão internacional
A exigência de certificações em mercados maduros, especialmente na Europa, tem sido gatilho para empresas brasileiras. Em 2019, em rodadas no Web Summit, gestores europeus sinalizaram que certificações eram requisitos para entrada em determinados canais; entre elas, a certificação B apareceu como diferencial. Isso conecta impacto à competitividade e à licença social e de mercado — isto é, a aceitação de clientes e parceiros baseada em práticas comprovadas.
- De-risking comercial: áreas de compras e compliance de grandes compradores veem a certificação como prova de controles e governança.
- Proteção em ciclos de ceticismo: quando o ESG é questionado, evidências robustas preservam reputação e valor.
- Acesso a capital e M&A: diferenciação sustentada por métricas e padrões reconhecidos melhora diligência e valuation.
Cíntia Gerardi reforça: “Quando o conceito de ESG começou a ser questionado, as empresas B mostraram impacto intrínseco e estratégico. Elas não recuaram de compromissos.” Rose Floriano acrescenta que unir esforços em ação coletiva no ecossistema — conhecido por comunidades de prática que compartilham soluções — acelera temas complexos como trabalho digno e transformação de cadeia.
Playbook para o C-level: integrar impacto ao core e certificar
Para executivos de grandes empresas em novos negócios, o caminho é conectar impacto à proposta de valor e ao P&L (demonstração de resultados), com governança e dados que sustentem auditoria e recertificação.
- Diagnóstico de materialidade vivo: mapeie temas que importam para negócio e sociedade, conectando-os a unidades de receita e atualizando com dados de clientes, cadeia e reguladores.
- Métricas e metas ligadas ao desempenho: estabeleça baseline e KPIs que integrem impacto às metas executivas; por exemplo, CO₂ evitado por real de receita ou margens de soluções de economia circular — conceito que promove reuso e menos insumos virgens.
- Design de negócio de impacto: desenvolva produtos/serviços cuja geração de receita depende do resultado socioambiental (eficiência energética com contratos de performance, logística reversa com recuperação de valor).
- Governança e evidências: crie comitês de impacto conectados ao conselho, padronize políticas (compras responsáveis, diversidade, resíduos e emissões) e orquestre evidências interoperáveis com GRI e SASB.
Rose Floriano sintetiza: “Saia da certificação com um plano de ação. Algumas coisas entram no curto prazo, outras exigem colaboração. O importante é que vire prática.” Cíntia Gerardi conclui com pragmatismo: “A certificação não é a meta; é consequência de uma estratégia que torna impacto material para o negócio.”


